Prólogo
Os gritos dos suínos no matadouro embalaram meus sonhos infantis. Quais as consequências psicológicas que esses sons, nada harmônicos nem melódicos, causaram em minha mente? Pena, dor, sentimento de vingança contra a raça humana? Nada disso e tudo isso: muitos questionamentos sobre o que representa no imaginário coletivo a palavra porco e qual o papel de seu representante físico no mundo real.
Porco, pra quê te quero?
Porcofobia?
Boca de porco é como chamam um lugar bagunçado, que não preza pela qualidade, mal gerenciado. Cabeça de porco é como chamam um cortiço, um lugar cheio de gente e, por isso também, um pouco bagunçado. Porco é como chamam o torcedor do Palmeiras, mas também é como nos referimos aos indivíduos de conduta duvidosa, indivíduos bagunçados moralmente... [sem analogias, por favor!] E os judeus e adventistas e mais um monte de religiosos não comem carne de porco, pois os bichinhos foram malditos na Bíblia como representantes do tinhoso na Terra! E agora tem a gripe porcina, tão pegajosa quanto a viúva! Será que é a praga do Apocalipse já prevista na década de 80? Em 2012 quem não comer porco será arrebatado? Deuses!
Hócus-pócus, pobres porcos!
Dizem que os porcos são tão inteligentes quanto os cachorros. Nunca pude comprovar, pois os que conheci viraram comida assim que cresceram um pouco. Sei que criam porcos em casa sem fins alimentícios [ainda não conheci nenhum criador desse tipo], mas porcos-toy não são assim populares com a garotada que foi doutrinada a gostar dos cães, gatos e peixes. O único destaque positivo dos suínos na mídia foi o porquinho falante Babe, de quem não temos notícias há anos, pois cresceu muito e deve ter virado presunto ou viciado em ervas, como os atores mirins.
Temos de admitir que porcos são figuras malquistas até em desenhos animados: ou são gagos, ou são detestados por lobos, ou são maldosos e querem aprontar alguma pra cima dos carneiros [Shaun que o diga!].
Então, foquemos nas coisas boas que os porquinhos nos trazem: nhóinc! é uma onomatopeia fofa; tem também focinho que sobe-e-desce e fica suando e solta ar quente com perdigotos e remete ao cheiro do chiqueiro, éca!
Epílogo
Puxa, acho que só a alquimia culinária [para quem não tem uma religião com dieta restritiva e não acredita que isso vai impedir o arrebatamento em 2012] é que pode nos lembrar dos prós de um porcino: o carinho do pernil de Natal, o aroma do chucrute, a cor peculiar da água da salsicha, o paladar inenarrável do lombo com abacaxi, o brilho da bistequinha, a tonalidade rosa-roxo do presunto... e aaah, os assustadores mas gostosos porco no rolete e porco assado com a maçã na boca!
Porco, como te quero!
Terça-feira, Novembro 17, 2009
Ouvem-se os suínos de Natal
Fácil, fácil!
Como todo restaurante que dá um "tíque" e, se você juntar dez deles, ganha uma refeição completa; ou então como o café que, se você colecionar cinco carimbos, o próximo é na faixa, o botequim da esquina tem promoção exclusiva para beberrões de Tubaína [a rainha do espumante tutti-frutti] e glutões de P.F. [a refeição mais balanceada à brasileira]: pague R$ 6,99, tome um cafezinho adoçado na saída, chupe uma bala de menta e, guarde o troco – depois de 700 refeições você ganha uma de grátis!
Terça-feira, Novembro 10, 2009
"Tempo-tempo mano velho..."
Ontem não consegui dormir até acabar o programa Invenção do contemporâneo na TV Cultura [o que atrapalhou meu trabalho hoje, já que as emissões realmente importantes passam depois da meia-noite...].
Há tempos ouço falar da Olgária Matos, ouvia muito falar dela nos corredores da Filosofia, mas não sabia qual sua aparência nem voz. A imagem que eu tinha criado era a de uma pessoa de uns 70 e trá-las-las anos, cabelos brancos presos em coque e com uma personalidade um tanto quanto dura.
A personalidade deve ser muito forte, mas ela é jovem, simpática, fala sobre a contemporaneidade como poucos que já ouvi, com muita desenvoltura, e o tema que ela abordou me interessava muito: o tempo sem experiência.
Para quem quiser, reserve um tempo [+ ou - 40 minutos] para experienciar que suas angústias com a passagem do tempo, cada vez mais rápida e com esse sentimento de vazio, vêm num crescendo desde 1855! Aí vai o link, aproveitem!
Sábado, Agosto 22, 2009
ando num cansaço,
barulho
cidade
cabeça
pessoas
parece que é febre,
boca
som
palavras
sentido algum
parece que é falta,
mão
coração
delicadeza
silêncio
acho que é isso,
dizer que não.
Deu zebra?
Sexta-feira, Agosto 21, 2009
Na verdade,
Cada época tem o vício de linguagem que merece e “Na verdade,” é o da vez. Daqui a alguns anos, algum lexicógrafo vai achar fundamental incluir a locução no verbete “verdade” e a etimologia será a seguinte:
[var. do lat. in+a+ veritas, adaptada ao séc. XXI: muito usada nos ambientes de trabalho, chamados de empresas, a expressão “Na verdade,” vem seguida da mesma frase que a pessoa acabou de dizer, só que explicada de uma maneira ou mais rebuscada (para encobrir a mentira) ou mais didática (para o enunciador se sentir intelectualmente superior). A expressão vem sempre seguida de vírgula, pois a pausa é necessária para dar autenticidade a ela.]
Sábado, Maio 16, 2009
Vale a pena
Domingo, Abril 19, 2009
Os bichos - II
A cadela Nina
Nina olha a câmera e arrebita o focinho. Seus olhos curiosos tentam descobrir quem é a figura faceira refletida na lente. Em segundos, ela ergue a sobrancelha e, num auto-reconhecimento instantâneo, sorri largo. Sua imagem é capturada. Fica, então, registrado, que Nina faz parte da estirpe dos cães puramente felizes. Na velocidade de um flash, Nina faz com que vejamos [através de seus olhos despretensiosos] as portas do mundo que devem ser abertas.
Os cachorros Sagu e Magoo
Filhotes de mesma mãe - Pagu - Sagu e Magoo não se largam. Tentaram separá-los, mas eles nasceram grudados! O que seria dos olhos de Magoo, todos esbugalhados, se não fosse o afetuoso irmão-guia Sagu? O que seria de Sagu, cachorro-carente [quase um cachorro-quente], se não fosse a fraternidade [sem interesses] de Magoo?
O gato Mané
Dando uma de Mané, foi se aboletando na grama da vizinha. Dia sim, noite sim, Mané miava à luz do sol, da lua e olhava fixo pras estrelas. Dias depois, Mané conseguiu dormir dentro do novo lar e ganhou cinco irmãos gatos e um irmão cachorro - "Que alegria!". No entanto, ninguém sabia que Mané, em suas noites ao relento, tinha ganhado uma mania... Olhava as estrelas fixamente e pedia, com fé sincera, para ganhar uma família. Como seu pedido foi atendido e não queria perder seus novos companheiros mais queridos, sismou que cada habitante da casa era uma estrela e que ele os olharia fixamente sempre, para nunca perder o céu de vista. Mas pobre Mané! Guardou seu segredo a sete chaves e foi incompreendido pela sua fraternidade. "É um esquisito, seu olhar fixo é uma anomalia, uma afronta!" - dizem seus irmãos. Mas mesmo assim, maltratado e rejeitado, ele ama esse céu que compôs pertinho dele e os fixa em sua mira. [hoje, Mané - o vencedor do concurso felino de quem pisca primeiro - apanha de seus irmãos semana sim, semana sim. ele reage deitando de costas, levantando suas patinhas e pedindo às estrelas que fiquem um pouco mais alegrinhas...]
O cachorro Tutti
Tutti de tutti-frutti não tem nada. Nem de fruta alguma, nem de tutti buona gente, ele é especialista em tocar o terror na multidão. Em seus 50 cm de comprimento, 30 cm de altura e poucos quilos de puro pelo, Tutti, para piorar, é bipolar. Uma hora ele te ama, pede colo, bate patinhas. Na outra, te abocanha com sua arcada dentária pequena, mas afiada. Ele é o Scoobiloo dos poodles, o Taz do Brasil. Furacão 2000 que o aguarde, pois MC Tutti Besta-Fera é militante e vai dar um fim a essa onda de chamar humanos de cachorras - o que ele considera um desfavorecimento à sua classe. É bom estar preparado!
Quinta-feira, Abril 09, 2009
Esfinge
Em fita enfileiram-se.
Em linha encontram a agulha e espetam.
Em corda reverberam do diafragma à face.
Em fio chegam sem pedir licença.
Em teia penetram o sombrio, o luminoso, o tenebroso, o maravilhoso.
Domingo, Março 15, 2009
O último filme que me fez chorar foi O Escafandro e a Borboleta. E a dor no estômago que me deu hoje fez eu me lembrar dele. Todos esses filmes de superação mexem comigo. Qualquer história do tipo “Gente que faz” me motiva a ser cada vez melhor, mais engajada, mais ativa, mais corajosa, mais qualquer coisa que seja tudo de melhor.
Quando era pequena assisti pelo menos umas 20 vezes ao filme da Nadia Comaneci, chorei todas elas e decidi que queria ser alguém importante, reconhecida pela superação dos obstáculos. Na escola praticava a ginástica olímpica; em casa, eu e minha prima fazíamos apresentações no colchão no chão, com paradas de mão, pontes, cambalhotas, o maior sucesso pra gente. Até o dia em que, depois de uma parada de mão, quase quebrei o pé. E desisti.
Com O Escafandro e a Borboleta, já pensei diferente. Putz, o cara pisca pra escrever um livro e eu, que posso piscar, falar, escrever e rebolar, fico mais parada que o trânsito em São Paulo, esperando uma pomba suicida bater no vidro do carro pra ter um lampejo de brilhantismo e escrever.
Daí, os botões ativaram: que engajamento é esse, tão efêmero quanto a duração do filme ou, pior, da vinheta? Essa minha meia-educação-católica / meia-educação-masoquista fez com que eu achasse por muito tempo na minha vida que o sofrimento é o que move, a falta de amor é o que faz ter assunto, a falta, o sofrer, a dor... [a dor de estômago resultante de um pacote de Calipso, shame on me! Hehehehe!]. Balela! [não baleia, :o)!] Mentira que é bom sofrer de amor. Mentira que pra ser criativo alguém precisa de drogas e um pé na bunda. O mundo está cheio de histórias tristes, pessoas reclamando de tudo e oportunidades escapando.
Bom mesmo, legal a valer, é ser simples e feliz. Mas não feliz-propaganda-de-margarina-absorvente-higiênico-serenus. Ou então feliz-mulheres-das-novelas-apaixonadas. Mas sim feliz-amar-e-ser-amada-sorrir-despreocupada-saber-que-pode-confiar-e-que-pra-sempre-é-hoje-todos-os-dias-agora. Com a família, com o amor-querido, com as amigas, com quem acabo de conhecer, até com a carcereira do refeitório do trabalho.
Talvez eu não deva escrever nem mesmo tentar ser ginasta [o que seria improvável na minha balzaqueanice e na minha forma física, rs], mas todos os dias meu engajamento está dentro do que é possível: me dedico a ser uma pessoa melhor, falho, me dedico novamente, falho, e vou pra onda do querer me desafiar nas esquisitices. [Agora, por exemplo, era para eu estar trabalhando num livro legal-porém-difícil; mas ouvir a voz do amor-querido me fez lembrar do blog e me fez querer escrever sobre o que encontrei, porque decidi, não por sorte...]
***
Faz um tempo que descobri que é fator-isolante ser feliz nesse mundo de gente que busca a felicidade e prefere ser triste. Até as pessoas a quem amamos acham difícil acreditar que alguém possa ser feliz! Se googlarmos, acharemos 5.400.000 para livros sobre felicidade. Será que a felicidade – a simples, que faz você sorrir quando vê passarinhos verdes num céu cinza – foi experimentada em todas essas milhões de páginas?
Domingo, Março 08, 2009
Persistência
Sexta-feira, Outubro 10, 2008
II
Terça-feira, Outubro 07, 2008
I
Domingo, Julho 27, 2008
De repente, Orelha descobriu porque nada ornava. Há 25 anos apaixonava-se por cérebros.
[Orelha] - Ouvido, nossa, escute! Descobri o que acontece comigo. Parte dos meus neurônios migram para órgãos como fígado e estômago; parte faz um bloqueio da ligação visão-raciocínio-lógico. É daí que vem minha estranha paixão por cérebros!
Ouvido queria ouvir outra conclusão. Provocou-a.
[Ouvido] - Orelha, você está muito intelectualizada. Vamos analisar a procedência dessa cegueira e burrice súbita, depois você tira conclusões melhores.
[Orelha] - Intelectualizada o escambal! Faz 25 anos que me analiso e agora cheguei a uma associação plausível! Ei, por favor! Ouça direito, depois venha me analisar!
Orelha tira um bastão cotonete de seu bolso e o entrega ao Ouvido. Este o utiliza com prazer inenarrável, olhando para cima. Orelha se espanta: nunca tinha visto Ouvido com os olhos brilhantes e tão comovido! Aproveitou a brecha e lançou:
[Orelha] - Ouvido, preciso te perguntar uma coisa: você tem cérebro?
[Ouvido] - Cérebro? Ahn-han, claro! Somos da mesma espécie ou não?
Ouvido, ao ouvir a pergunta, respondeu-a esperançoso. Pensou, "Depois desse tempo todo ela só foi perceber agora que o Ouvido aqui tem tudo o que ela mais gosta? Cérebro e ouvidos para escutá-la! Tanto suas doces quanto suas terríveis palavras..."
Encontravam-se à sós, Ouvido e Orelha, ela ao pé dele, ambos sentados à mesa, na calçada, a 50 centímetros de distância. Ouvido não sabia que Orelha tinha mudado sua maneira de ouvi-lo a partir do momento em que viu Ouvido se sentir feliz com uma coisa simples.
[Orelha] - Ouvido, você viu as estrelas no céu hoje?
[Ouvido] - Olhei-as quando você me emprestou o bastão cotonete. Lindas! Elas me deixam feliz, não sei porquê.
[Orelha] - Porque elas te...
[Ouvido] - ...me ligam diretamente ao coração de quem eu amo.
[Orelha] - É exatamente isso que eu sinto! Puxa, faz tanto tempo...
E os dois sorriram, de orelha a orelha, e deixaram um cometa rastrear o começo de suas histórias.
Segunda-feira, Maio 26, 2008
a primeira vista
o primeiro sorriso
a primeira conversa
o primeiro livro
a primeira música
o primeiro filme
a primeira dança
o primeiro passo
a primeira confissão
o primeiro beijo...
não nessa ordem, nem em espaço de tempo que se possa contar. amor-amor, como o perfume, o aroma, está na memória do dia-a-dia, a cada dia, maior-maior. [:o)]
***
Há tempos não escrevo textos sérios, revoltados, despeitados, irônicos. Minha quase-poesia está com os dois pés no pueril. Acho que essa mudada de tom está boa pra mostrar que é possível ser mais leve depois de ter carregado alguns pesos. E que tudo só fortaleceu um músculo do corpo, o coração.
Quarta-feira, Maio 21, 2008
Trocadilhando [ou os quatro elementos]
[Quem disse que vai acabar?]
água da chuva pra regar
água do mar pra navegar
água do olho pra descarregar
água do rio pra bebericar
água do amor pra criar, criar...
[E a gente respira isso todos os dias...]
ar, ar, ar...
está em todos os mais importantes verbos da primeira conjugação: amar, respirar, brincar, trabalhar, regar, plantar, cuidar, amar, amar, amar...
["Por mais distante, o errante navegante..."]
terra:
põe os pés nela
gaia criadora
e acarinha
[Transforma e transcende]
fogo, fogueira, fogão:
no tempo, no espaço, nos astros
primeira luz, guia, elemento astrolábio
continue regendo, transformando e transcendendo
Quinta-feira, Março 27, 2008
Os bichos
A gatinha Nina
Nina seria seu nome. Nina chega perto e vira de barriga pro céu. Ela quer carinho. Nina deita do meu lado e me dá beijinhos com sua língua áspera. Nina se chama Nina de tão pequenina que é. Que vontade de ninar Nina! [mas ela cospe bola de pêlos...]
O gatinho Tomás
Podem dar bola de lã, bola de papel alumínio, bola de meia, que Tomás nem dá bola. Tomás quer correr sem rumo, pular no ombro e cheirar o pescoço de sua dona. Menino-gato, Tomás quer mais é paz. [Tomás tem uma pinta na ponta do nariz...]
O cachorro Bob
Sem lenço e sem documento, ele apareceu. Seu primeiro nome ninguém sabia, mas conquistou todos com sua pinta de sangue bom. Carinho pra dar era o que não faltava! Até que, em um belo-dia-feijuca-feliz, Negão arranjou uma família e foi batizado mais uma vez. Bob é seu nome; Marley, sobrenome. [Bob tem um pêlo que faz inveja aos maiores adeptos do rastafári...]
O cachorro Lênin
Com nome e figura imponentes, de botar medo até em grandes russos, Lênin mostra a alma no primeiro olhar. É doce, desajeitado [seu corpo é muito grande pra sua meninice toda] e bom. Ele olha pra você e te chama pra brincar. Mas se você faz que num viu, que não tá nem aí, ele insiste. Porque ele gosta da brincadeira e quer dividi-la com você. Então, marotamente, chega perto, dá uma lambidinha na sua mão e sai correndo. [Lênin é branco como a neve, grande como o seu coração...]
O saber do amor
Em um olhar ver a verdade no que tem por dentro.
Ser amado pelo que é, por existir no mundo do jeito que for.
[nunca fui tão feliz. e é fácil.]
Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008
E a página virou sal.
Pequenos grãos disformes em movimento de cascata caíam dos olhos da menina. Menina que gritava como nunca se ouviu. Era a sua história que se desfazia, à medida que as palavras eram jogadas ao vento. Preces, confissões, pessoas, lugares, os sentidos. Os sentidos – tudo se misturava com o ar.
Desapareceu para o desconhecido.
E o novo se fez com o sol, a água, o ar, o chão. O sol trouxe a luz. A água, os sentimentos. O ar, a memória. O chão, o apoio. E a menina vivia o novo tranqüila. Conduzia os sentidos em direção à essência, ao que é. Pessoas, confissões, lugares têm sentido: são. Tudo o que existe é um.
Expandiu em espiral.
Sábado, Janeiro 26, 2008
Desabando as estrututras
Quinta-feira, Dezembro 20, 2007
Retrospectiva
Desencontros marcados seguidos por peças que vão se encaixando no quebra-cabeça da vida.
Vida que me traz o que quer, prega peças, quebro a cabeça, reconstituo-a. Até que aceito o que veio até mim e fica tudo bem. Então, começa tudo de novo. Chega gente nova, vai gente que não cabe mais. Tudo traz aprendizado. E aquele negócio de abrir mão do que não se tem, do desapego do que não existe. Abrir os olhos pra tudo o que está dentro, reconhecer e manter ou melhorar. Com a ajuda do etéreo, dos incensos, das músicas, dos amigos, dos inimigos, dos pêndulos e sins e nãos, mais um ano que começa. E vêm mais novidades, novelas e novelos pra desenrolar.
***
Alguém tão parecido com você. Mesmo. Oposto no signo e parecido por dentro. E eu que me achava única em tanta coisa! [rsrsrs]
Segunda-feira, Dezembro 17, 2007
Templo
Domingo, Dezembro 16, 2007
Sonhos, realidades, arquipélagos
O momento: tornar o sonho em realidade.
Ver, no sonho, as imagens: o que elas revelam e o que elas escondem.
Ver, na realidade, as pessoas: o que elas são e o que elas sentem.
A procura da ilha desconhecida: a chance de nos conhecermos e de nos redimirmos.
Vistos de fora
Procura no além-mar tesouros guardados na infância.
Pensa na vida que viveu e quer retomar a vida.
[Sempre é tempo eterno]
Vê na terra estrangeira a possibilidade de encontrar os verdadeiros tesouros.
Na figura paterna, o elo que se forma em buscas comuns.
[Ser é ser eterno]
Terça-feira, Outubro 16, 2007
Paperwall
Domingo, Setembro 16, 2007
Um laboratório de experiências. Os olhos abertos, os ouvidos atentos, o ritmo do ar dos pulmões que acompanha o coração. Pernas que dão o movimento. Interrogações interiores. O que surpreende por ser simples. Um milésimo de segundo atrás é passado. O futuro não existe senão no presente. Sair do cotidiano e do descuido do mundo. Sempre alerta e aberta. Pro bem e pro mal; por bem ou por mal. A dualidade, o absoluto, o além, o sorriso e o gesto. O natural e a natureza. O amor e o perdão, o eterno-perene.
Sexta-feira, Agosto 31, 2007
Dos momentos. Dois momentos. Um momento, por favor.
Dos relacionamentos e das expectativas
a) Quando namorei um engenheiro, pensava que em uma de suas criações ele fosse pôr minhas iniciais em algum lugar do concreto fresco.
b) Quando namorei um poeta, queria reconhecer em suas poesias alguma coisa que tínhamos vivido.
c) Quando gostei de um artista plástico, queria ver alguma coisa de mim em suas criações.
Do que aconteceu
a) O engenheiro em questão trabalhava em um banco de investimentos.
b) O poeta me fez poesia no começo, depois foi investir em outras musas.
c) O artista plástico não se manifestou em nenhum momento.
De mim
As palavras precaução e cautela, o alerta cuidado!, não existem no meu dicionário. Tenho aquela coisa de me jogar. E então, crio expectativas baseadas no que eu faria para o outro. Insisto em relações que fazem com que eu aja como um cachorro, correndo atrás do rabo. Sem resposta, sem sinal, sem sair do lugar. Tá aí o problema. Em mim. Coisa mais egocêntrica.
Do agora
Vou mesmo dar um tempinho. E começar a investir na visão além do alcance.
Quinta-feira, Agosto 23, 2007
Sobre o amor
Ele disse que, para o amor nascer, três coisas são necessárias: admiração, esperança e uma dose de insegurança.
Concordo e simplifico. Para o amor nascer, a gente precisa permitir que ele nasça.
Peixe fora d'água
Sábado, Agosto 18, 2007
Melhor que raio-x, só muitos olhos!
Gosto de ser encontrada por livros. Sem querer esse aí me encontrou e quem me deu viu que eu gostei tanto [mas tanto, mais ainda do que ele], que acabei o ganhando um presentão!
São poemas sobre alguns personagens peculiares de Tim Burton, com os quais me identifico bastante [:o)]! O livro se chama O triste fim do pequeno menino ostra e outras histórias e foi publicado pela Girafinha.
A menina de muitos olhosDia desses no parque
Vi uma moça de raro encanto.
Tinha tantos, tantos olhos
Que, confesso, fiquei meio tonto.
A sua beleza não era pouca
(Aliás, que tremenda gatinha!)
Quando notei que tinha boca,
Engatamos uma conversinha.
Falamos sobre ecologia,
Sobre suas aulas de poesia,
Sobre os óculos que usaria
Se um dia tivesse miopia.
Mas, de tudo, o que eu mais adoro
É seu olhar diversificado.
Se entretanto ela cai no choro,
Não tem quem não fique molhado.
Quinta-feira, Agosto 02, 2007
Órion
Depois preferi a distância e ela ficou registrada na memória, nas fotos, nos cartazes.
Agora, depois de olhar por tempos reproduções auto-colantes, a trago pra perto vez ou outra e, então, permito-me lembrar de onde vim.
Quarta-feira, Julho 25, 2007
Um café e uma pista, por favor.
"– Desde quando você gosta de coffee?
– Desde que te conheci!
– Ai, bonito! Então vou cantar uma música da Gloria Gaynor!"
Seja lá o que café tenha a ver com Gloria Gaynor, começou a cantoria na mesa ao lado. Eu, tentando ler. O escritor, à minha frente, tentando escrever: duas canetas, um caderno e um maço de cigarros.
Impossível não prestar atenção nos rapazes, muita alegria e agudos fenomenais! Ele também está prestando atenção nos rapazes cantantes. Será que os transformará nos próximos personagens principais de um best-seller? Um deles tem toda a pinta de serial killer, dândi feito o protagonista de Frenesi. O outro pode ser a primeira vítima da série, porque lhe falta um quê de personalidade.
E o escritor não pára de escrever e está tentando ver o que estou lendo. Já sei! Vou dizer o que estou lendo, se ele deixar eu ler o que está escrevendo. Porque ele tem um sorriso pregado no rosto enquanto escreve. Troca justa. Vou lá! Chegou meu café. Minha curiosidade vai ter de esperar o café acabar.
Tarde demais, faltam 5 para as 9. A sessão de Uma verdade inconveniente vai começar. Ele fecha o caderno, levanta, pega as duas canetas, as põe no bolso junto ao maço de cigarro, me dirige um sorriso e se dirige à sala, acompanhado da alegria dos dois que agora não cantam, falam sobre La Dolce Vita:
"–Ai, não existem mais mulheres como Anita Ekberg! Que busto! [busto? educados... :o)]
–Nem homens como Marcello Mastroianni! Que...
[juntos] – Ah-rá-rá-rá-rá-rá-rá!"
[[O que será que eles sabem sobre o Marcello Mastroianni? :o)]]
Sexta-feira, Julho 13, 2007
Equilibrando sapos
- Primeiro você se indigna com os deuses, com o mundo e com tudo o que te acontece. Falta de paciência total.
- Depois, visto que tudo está legal para a maior parte das pessoas e só você sente indignação, preocupação, a indignação fica escondida e você começa a engolir os sapos-boi, pois põe-se no lugar do outro, entende, blá, blá, blá.
- Em certo momento você se cansa novamente e diz: "Nossa, como pude ter tanta paciência!", seguido por "Vão tomar suco de caju e vivam suas vidas!".
[Advirto: os pronunciamentos dessas fases são, todos, seguidos de profunda dor de garganta]
- Por último, você se percebe em um estado de letargia. "Ah! legal!", "Ah, que bom!", "Puxa, que coisa para se dizer, mas vamos deixar o girino viver!", são as frases mais recorrentes que saem da sua boca. Você pode achar isso preocupante, mas asseguro que os resultados são reconfortantes. A dor de garganta ameniza, devido à diferença de tamanho entre sapos-boi, sapos, pererecas e girinos.
Não que eu tenha comprovado muita coisa, pelo fato de o processo todo ser demorado, mas tenho de acreditar que é assim que as coisas fluem. "É assim que as coisas fluem, é assim que as coisas fluem, é assim que as coisas fluem..." [meu estágio atual, hehehe!]
Segunda-feira, Junho 25, 2007
Há alguns dias sem vontade de falar, sem ter o que dizer, amante do silêncio.
Arrumo a casa, jogo fora 5 sacolas cheias de papel. Entre os papéis poemas, cartas, desenhos, rabiscos de letras, notícias velhas.
Resolvidas as poucas pendências, fica a abertura. É tanta liberdade e não sei o que fazer com ela. Não quero perder tempo, mas tenho de saber respeitá-lo.
O silêncio, então, me pede pra dormir. Fecho os olhos e, com a cabeça doendo, as imagens começam a aparecer em vermelho e preto:
# Vista da cidade à noite com as luzes acesas, tudo virando até ficar de ponta cabeça.
# Disco voador que emana luz vermelha, homem alado que se transforma em luz , sobe e desce transformado em raio.
# Milhares de mãos pretas com unhas vermelhas que tentam alcançar alguma coisa [sabe-se lá o quê...].
Acordo sem conseguir abrir os olhos, com dor de cabeça e a cabeça a mil. Ganho um carinho nos cabelos, um beijo, um sorriso e tento retribuir com um sorriso tranqüilo. Mas não quero falar, não quero acordar, durmo de novo. Desta vez as imagens vêm coloridas:
# Casa de tijolos pintada de branco com grandes janelas de madeira. Entro na casa e ela se divide em partes: janela-porta-parede-telhado-chão.
# Vou direto à janela e, em cada vidro, aciono botões que abrem universos ilustrados. A família, os amigos, os amores, as pessoas que passaram rápido na minha vida, quem eu queria ter conhecido e os desconhecidos.
# Na porta os sentidos, na maçaneta a memória, na fechadura o amor.
# Nas paredes cenas do cotidiano, de anos, que não devem ser esquecidas.
# No telhado um galo português indicando as direções e os ventos. Sento ao lado dele e olho para o chão. Tudo é translúcido e no chão só vejo a base: a terra cor de tijolo.
Abro os olhos mais uma vez, sem a dor na cabeça, preciso ir embora. Ganho mais carinho nos cabelos, mais beijos, mais um sorriso.
Já esse sorriso é meu e vem do sentir o que o silêncio quis me lembrar: o quanto é bom ser livre e gostar de alguém.
Sexta-feira, Junho 22, 2007
Sopros
O vento traz cheiro do novo, faz rodamoinho com ele e eu respiro.
vento com cheiro,
cheiro com novo,
novo com aroma,
aroma amor a.



