De repente, Orelha descobriu porque nada ornava. Há 25 anos apaixonava-se por cérebros.
[Orelha] - Ouvido, nossa, escute! Descobri o que acontece comigo. Parte dos meus neurônios migram para órgãos como fígado e estômago; parte faz um bloqueio da ligação visão-raciocínio-lógico. É daí que vem minha estranha paixão por cérebros!
Ouvido queria ouvir outra conclusão. Provocou-a.
[Ouvido] - Orelha, você está muito intelectualizada. Vamos analisar a procedência dessa cegueira e burrice súbita, depois você tira conclusões melhores.
[Orelha] - Intelectualizada o escambal! Faz 25 anos que me analiso e agora cheguei a uma associação plausível! Ei, por favor! Ouça direito, depois venha me analisar!
Orelha tira um bastão cotonete de seu bolso e o entrega ao Ouvido. Este o utiliza com prazer inenarrável, olhando para cima. Orelha se espanta: nunca tinha visto Ouvido com os olhos brilhantes e tão comovido! Aproveitou a brecha e lançou:
[Orelha] - Ouvido, preciso te perguntar uma coisa: você tem cérebro?
[Ouvido] - Cérebro? Ahn-han, claro! Somos da mesma espécie ou não?
Ouvido, ao ouvir a pergunta, respondeu-a esperançoso. Pensou, "Depois desse tempo todo ela só foi perceber agora que o Ouvido aqui tem tudo o que ela mais gosta? Cérebro e ouvidos para escutá-la! Tanto suas doces quanto suas terríveis palavras..."
Encontravam-se à sós, Ouvido e Orelha, ela ao pé dele, ambos sentados à mesa, na calçada, a 50 centímetros de distância. Ouvido não sabia que Orelha tinha mudado sua maneira de ouvi-lo a partir do momento em que viu Ouvido se sentir feliz com uma coisa simples.
[Orelha] - Ouvido, você viu as estrelas no céu hoje?
[Ouvido] - Olhei-as quando você me emprestou o bastão cotonete. Lindas! Elas me deixam feliz, não sei porquê.
[Orelha] - Porque elas te...
[Ouvido] - ...me ligam diretamente ao coração de quem eu amo.
[Orelha] - É exatamente isso que eu sinto! Puxa, faz tanto tempo...
E os dois sorriram, de orelha a orelha, e deixaram um cometa rastrear o começo de suas histórias.
27 de julho de 2008
26 de maio de 2008
a primeira vista
o primeiro sorriso
a primeira conversa
o primeiro livro
a primeira música
o primeiro filme
a primeira dança
o primeiro passo
a primeira confissão
o primeiro beijo...
não nessa ordem, nem em espaço de tempo que se possa contar. amor-amor, como o perfume, o aroma, está na memória do dia-a-dia, a cada dia, maior-maior. [:o)]
***
Há tempos não escrevo textos sérios, revoltados, despeitados, irônicos. Minha quase-poesia está com os dois pés no pueril. Acho que essa mudada de tom está boa pra mostrar que é possível ser mais leve depois de ter carregado alguns pesos. E que tudo só fortaleceu um músculo do corpo, o coração.
o primeiro sorriso
a primeira conversa
o primeiro livro
a primeira música
o primeiro filme
a primeira dança
o primeiro passo
a primeira confissão
o primeiro beijo...
não nessa ordem, nem em espaço de tempo que se possa contar. amor-amor, como o perfume, o aroma, está na memória do dia-a-dia, a cada dia, maior-maior. [:o)]
***
Há tempos não escrevo textos sérios, revoltados, despeitados, irônicos. Minha quase-poesia está com os dois pés no pueril. Acho que essa mudada de tom está boa pra mostrar que é possível ser mais leve depois de ter carregado alguns pesos. E que tudo só fortaleceu um músculo do corpo, o coração.
21 de maio de 2008
Trocadilhando [ou os quatro elementos]
[Quem disse que vai acabar?]
água da chuva pra regar
água do mar pra navegar
água do olho pra descarregar
água do rio pra bebericar
água do amor pra criar, criar...
[E a gente respira isso todos os dias...]
ar, ar, ar...
está em todos os mais importantes verbos da primeira conjugação: amar, respirar, brincar, trabalhar, regar, plantar, cuidar, amar, amar, amar...
["Por mais distante, o errante navegante..."]
terra:
põe os pés nela
gaia criadora
e acarinha
[Transforma e transcende]
fogo, fogueira, fogão:
no tempo, no espaço, nos astros
primeira luz, guia, elemento astrolábio
continue regendo, transformando e transcendendo
água da chuva pra regar
água do mar pra navegar
água do olho pra descarregar
água do rio pra bebericar
água do amor pra criar, criar...
[E a gente respira isso todos os dias...]
ar, ar, ar...
está em todos os mais importantes verbos da primeira conjugação: amar, respirar, brincar, trabalhar, regar, plantar, cuidar, amar, amar, amar...
["Por mais distante, o errante navegante..."]
terra:
põe os pés nela
gaia criadora
e acarinha
[Transforma e transcende]
fogo, fogueira, fogão:
no tempo, no espaço, nos astros
primeira luz, guia, elemento astrolábio
continue regendo, transformando e transcendendo
27 de março de 2008
Os bichos
A gatinha Nina
Nina seria seu nome. Nina chega perto e vira de barriga pro céu. Ela quer carinho. Nina deita do meu lado e me dá beijinhos com sua língua áspera. Nina se chama Nina de tão pequenina que é. Que vontade de ninar Nina! [mas ela cospe bola de pêlos...]
O gatinho Tomás
Podem dar bola de lã, bola de papel alumínio, bola de meia, que Tomás nem dá bola. Tomás quer correr sem rumo, pular no ombro e cheirar o pescoço de sua dona. Menino-gato, Tomás quer mais é paz. [Tomás tem uma pinta na ponta do nariz...]
O cachorro Bob
Sem lenço e sem documento, ele apareceu. Seu primeiro nome ninguém sabia, mas conquistou todos com sua pinta de sangue bom. Carinho pra dar era o que não faltava! Até que, em um belo-dia-feijuca-feliz, Negão arranjou uma família e foi batizado mais uma vez. Bob é seu nome; Marley, sobrenome. [Bob tem um pêlo que faz inveja aos maiores adeptos do rastafári...]
O cachorro Lênin
Com nome e figura imponentes, de botar medo até em grandes russos, Lênin mostra a alma no primeiro olhar. É doce, desajeitado [seu corpo é muito grande pra sua meninice toda] e bom. Ele olha pra você e te chama pra brincar. Mas se você faz que num viu, que não tá nem aí, ele insiste. Porque ele gosta da brincadeira e quer dividi-la com você. Então, marotamente, chega perto, dá uma lambidinha na sua mão e sai correndo. [Lênin é branco como a neve, grande como o seu coração...]
Nina seria seu nome. Nina chega perto e vira de barriga pro céu. Ela quer carinho. Nina deita do meu lado e me dá beijinhos com sua língua áspera. Nina se chama Nina de tão pequenina que é. Que vontade de ninar Nina! [mas ela cospe bola de pêlos...]
O gatinho Tomás
Podem dar bola de lã, bola de papel alumínio, bola de meia, que Tomás nem dá bola. Tomás quer correr sem rumo, pular no ombro e cheirar o pescoço de sua dona. Menino-gato, Tomás quer mais é paz. [Tomás tem uma pinta na ponta do nariz...]
O cachorro Bob
Sem lenço e sem documento, ele apareceu. Seu primeiro nome ninguém sabia, mas conquistou todos com sua pinta de sangue bom. Carinho pra dar era o que não faltava! Até que, em um belo-dia-feijuca-feliz, Negão arranjou uma família e foi batizado mais uma vez. Bob é seu nome; Marley, sobrenome. [Bob tem um pêlo que faz inveja aos maiores adeptos do rastafári...]
O cachorro Lênin
Com nome e figura imponentes, de botar medo até em grandes russos, Lênin mostra a alma no primeiro olhar. É doce, desajeitado [seu corpo é muito grande pra sua meninice toda] e bom. Ele olha pra você e te chama pra brincar. Mas se você faz que num viu, que não tá nem aí, ele insiste. Porque ele gosta da brincadeira e quer dividi-la com você. Então, marotamente, chega perto, dá uma lambidinha na sua mão e sai correndo. [Lênin é branco como a neve, grande como o seu coração...]
O saber do amor
Em um olhar ver a verdade no que tem por dentro.
Ser amado pelo que é, por existir no mundo do jeito que for.
[nunca fui tão feliz. e é fácil.]
Ser amado pelo que é, por existir no mundo do jeito que for.
[nunca fui tão feliz. e é fácil.]
29 de fevereiro de 2008
E a página virou sal.
Pequenos grãos disformes em movimento de cascata caíam dos olhos da menina. Menina que gritava como nunca se ouviu. Era a sua história que se desfazia, à medida que as palavras eram jogadas ao vento. Preces, confissões, pessoas, lugares, os sentidos. Os sentidos – tudo se misturava com o ar.
Desapareceu para o desconhecido.
E o novo se fez com o sol, a água, o ar, o chão. O sol trouxe a luz. A água, os sentimentos. O ar, a memória. O chão, o apoio. E a menina vivia o novo tranqüila. Conduzia os sentidos em direção à essência, ao que é. Pessoas, confissões, lugares têm sentido: são. Tudo o que existe é um.
Expandiu em espiral.
Pequenos grãos disformes em movimento de cascata caíam dos olhos da menina. Menina que gritava como nunca se ouviu. Era a sua história que se desfazia, à medida que as palavras eram jogadas ao vento. Preces, confissões, pessoas, lugares, os sentidos. Os sentidos – tudo se misturava com o ar.
Desapareceu para o desconhecido.
E o novo se fez com o sol, a água, o ar, o chão. O sol trouxe a luz. A água, os sentimentos. O ar, a memória. O chão, o apoio. E a menina vivia o novo tranqüila. Conduzia os sentidos em direção à essência, ao que é. Pessoas, confissões, lugares têm sentido: são. Tudo o que existe é um.
Expandiu em espiral.
26 de janeiro de 2008
Desabando as estrututras
Recebi esse poema por e-mail e o li hoje. Nada é por acaso, nem o nome do poeta.
passeio no bosque
o canivete na mão não deixa marcas
no tronco da goiabeira
cicatrizes não se transferem
[cacaso]
Hoje tive uma conversa longa que nada mais foi do que uma repetição de conversas anteriores. Decidi, minutos após o término da dita, pôr em prática minha resolução de ano novo: chega de churumelas, de pegar problemas dos outros, de querer abraçar o mundo, de querer que todo mundo goste de mim.
Tudo o que é muito rígido um dia tem que se dobrar. Demorou um tempão pra eu deixar de querer passar no concurso de santa e, de verdade, só depois dessa desistência é que comecei a aproveitar mais a vida, ver meus erros, errar bastante e acertar mais.
Foi por isso que escolhi: da minha vida só faz parte gente boa, bem-humorada, inteligente, interessante, sincera, leal, amiga pra todas as horas; gente imperfeita que se assuma como tal e com quem eu possa aprender, trocar, compartilhar. [também aceito que faça parte dela algumas poucas pessoas que o universo escolheu por mim e que eu tenho que engolir, rs.]
Quero manter o movimento e melhorar sempre. Estou muito feliz, vivendo tranqüila, cercada de uma energia inédita pra mim. Num gostou do que eu fiz, falei, espirrei, respirei? Sou totalmente aberta ao crescimento pela verdade! Num gosta de mim? Assuma! Não é porque o universo nos colocou no mesmo lugar que você é obrigada a me achar bacanuda. Sério mesmo. Só chega de transferência de dor, de projeção baixo-astral.
Ponto final. [em aberto[
20 de dezembro de 2007
Retrospectiva
Desencontros marcados seguidos por peças que vão se encaixando no quebra-cabeça da vida.
Vida que me traz o que quer, prega peças, quebro a cabeça, reconstituo-a. Até que aceito o que veio até mim e fica tudo bem. Então, começa tudo de novo. Chega gente nova, vai gente que não cabe mais. Tudo traz aprendizado. E aquele negócio de abrir mão do que não se tem, do desapego do que não existe. Abrir os olhos pra tudo o que está dentro, reconhecer e manter ou melhorar. Com a ajuda do etéreo, dos incensos, das músicas, dos amigos, dos inimigos, dos pêndulos e sins e nãos, mais um ano que começa. E vêm mais novidades, novelas e novelos pra desenrolar.
***
Alguém tão parecido com você. Mesmo. Oposto no signo e parecido por dentro. E eu que me achava única em tanta coisa! [rsrsrs]
Vida que me traz o que quer, prega peças, quebro a cabeça, reconstituo-a. Até que aceito o que veio até mim e fica tudo bem. Então, começa tudo de novo. Chega gente nova, vai gente que não cabe mais. Tudo traz aprendizado. E aquele negócio de abrir mão do que não se tem, do desapego do que não existe. Abrir os olhos pra tudo o que está dentro, reconhecer e manter ou melhorar. Com a ajuda do etéreo, dos incensos, das músicas, dos amigos, dos inimigos, dos pêndulos e sins e nãos, mais um ano que começa. E vêm mais novidades, novelas e novelos pra desenrolar.
***
Alguém tão parecido com você. Mesmo. Oposto no signo e parecido por dentro. E eu que me achava única em tanta coisa! [rsrsrs]
17 de dezembro de 2007
Templo
Muitos dias passei lendo e colecionando histórias sentada no banco do lado da fonte colorida, perto da biblioteca e sob a luz do sol que faz arco-íris da água. O que surpreende é o mar de gente que passa pela entrada e muda de feição. Sabe aquela história que nossa alma tem cara própria? Então, é a alma que se liberta quando entra nesse lugar. Abre-se um mundo novo que ocupa os cinco sentidos. O cheiro da tinta e da poeira são minha madeleine e trazem todo tipo de lembrança. [madeleines não funcionam comigo. não ficam boas com café... acho que madeleines foram boas só pra termos Proust, rs] O olho se enche em todas as direções. A proibição do toque faz você sentir o proibido. Todo mundo falando baixinho, feito ladainha em respeito às mãos sagradas. E quando tem música, fica ainda melhor. O gosto de crescer os olhos, os ouvidos e a alma. Com todas as religiões, etnias, crenças e livres expressões, meu templo ecumênico, a Pinacoteca.
16 de dezembro de 2007
Sonhos, realidades, arquipélagos
O momento: tornar o sonho em realidade.
Ver, no sonho, as imagens: o que elas revelam e o que elas escondem.
Ver, na realidade, as pessoas: o que elas são e o que elas sentem.
A procura da ilha desconhecida: a chance de nos conhecermos e de nos redimirmos.
Ver, no sonho, as imagens: o que elas revelam e o que elas escondem.
Ver, na realidade, as pessoas: o que elas são e o que elas sentem.
A procura da ilha desconhecida: a chance de nos conhecermos e de nos redimirmos.
Vistos de fora
Procura no além-mar tesouros guardados na infância.
Pensa na vida que viveu e quer retomar a vida.
[Sempre é tempo eterno]
Vê na terra estrangeira a possibilidade de encontrar os verdadeiros tesouros.
Na figura paterna, o elo que se forma em buscas comuns.
[Ser é ser eterno]
Pensa na vida que viveu e quer retomar a vida.
[Sempre é tempo eterno]
Vê na terra estrangeira a possibilidade de encontrar os verdadeiros tesouros.
Na figura paterna, o elo que se forma em buscas comuns.
[Ser é ser eterno]
16 de outubro de 2007
Paperwall
No marco zero de toda cidade com mais de um milhão de habitantes tem um Paperwall.
Ele é feito do papel e seus parceiros. Papel de carta, papel de rascunho, papel de entrega, nota fiscal, papel de embrulhar carne, pão, peixe, papel jornal, papel-papel. Seus parceiros são o sangue, o verbo e a cola que mantém a estrutura firme.
Segundo as estatísticas, ele recebe mais de mil e quinhentas visitas por dia. As pessoas vão lá para reciclar seus sentimentos. Despejam sobre ele desamores, dores, rancores. Raramente despejam felicidade. Vão visitá-lo para obterem respostas e, quando isso não acontece, atiram pedras e choram nele. Algumas pedras conseguem transpassá-lo, tamanha a fúria do mundo. Apesar da vedação da cola, as lágrimas o incham e depois o encolhem, mudando sua estrutura.
Mas o Paperwall não se importa com as invasões na sua matéria. Até fica feliz, porque faz com que ele mude um pouco mais a cada dia. Os buracos são seus preferidos, pois faz com que as pessoas possam se ver e se reconhecer. Porque tanto a dor quanto o amor podem estar lá. Tudo se transforma. Quanto às lágrimas, ele diz que são necessárias. Está escrito em um dos jornais que o constitui, que lágrimas evitam a explosão interna de um ser humano – humano. Se você pensar bem, parece que tem um embasamento científico essa informação.
Hoje fui visitá-lo bem cedo. É impressionante o quanto de vida tem lá! Colei uma carta de amor do lado esquerdo e um desenho colorido do lado direito. Chorei um pouquinho, abri um buraquinho com uma agulha bem fininha e prometi voltar logo-logo pra contar as novidades.
16 de setembro de 2007
Um laboratório de experiências. Os olhos abertos, os ouvidos atentos, o ritmo do ar dos pulmões que acompanha o coração. Pernas que dão o movimento. Interrogações interiores. O que surpreende por ser simples. Um milésimo de segundo atrás é passado. O futuro não existe senão no presente. Sair do cotidiano e do descuido do mundo. Sempre alerta e aberta. Pro bem e pro mal; por bem ou por mal. A dualidade, o absoluto, o além, o sorriso e o gesto. O natural e a natureza. O amor e o perdão, o eterno-perene.
31 de agosto de 2007
Dos momentos. Dois momentos. Um momento, por favor.
Dos relacionamentos e das expectativas
a) Quando namorei um engenheiro, pensava que em uma de suas criações ele fosse pôr minhas iniciais em algum lugar do concreto fresco.
b) Quando namorei um poeta, queria reconhecer em suas poesias alguma coisa que tínhamos vivido.
c) Quando gostei de um artista plástico, queria ver alguma coisa de mim em suas criações.
Do que aconteceu
a) O engenheiro em questão trabalhava em um banco de investimentos.
b) O poeta me fez poesia no começo, depois foi investir em outras musas.
c) O artista plástico não se manifestou em nenhum momento.
De mim
As palavras precaução e cautela, o alerta cuidado!, não existem no meu dicionário. Tenho aquela coisa de me jogar. E então, crio expectativas baseadas no que eu faria para o outro. Insisto em relações que fazem com que eu aja como um cachorro, correndo atrás do rabo. Sem resposta, sem sinal, sem sair do lugar. Tá aí o problema. Em mim. Coisa mais egocêntrica.
Do agora
Vou mesmo dar um tempinho. E começar a investir na visão além do alcance.
a) Quando namorei um engenheiro, pensava que em uma de suas criações ele fosse pôr minhas iniciais em algum lugar do concreto fresco.
b) Quando namorei um poeta, queria reconhecer em suas poesias alguma coisa que tínhamos vivido.
c) Quando gostei de um artista plástico, queria ver alguma coisa de mim em suas criações.
Do que aconteceu
a) O engenheiro em questão trabalhava em um banco de investimentos.
b) O poeta me fez poesia no começo, depois foi investir em outras musas.
c) O artista plástico não se manifestou em nenhum momento.
De mim
As palavras precaução e cautela, o alerta cuidado!, não existem no meu dicionário. Tenho aquela coisa de me jogar. E então, crio expectativas baseadas no que eu faria para o outro. Insisto em relações que fazem com que eu aja como um cachorro, correndo atrás do rabo. Sem resposta, sem sinal, sem sair do lugar. Tá aí o problema. Em mim. Coisa mais egocêntrica.
Do agora
Vou mesmo dar um tempinho. E começar a investir na visão além do alcance.
23 de agosto de 2007
Sobre o amor
Li que Stendhal teorizou sobre o amor.
Ele disse que, para o amor nascer, três coisas são necessárias: admiração, esperança e uma dose de insegurança.
Concordo e simplifico. Para o amor nascer, a gente precisa permitir que ele nasça.
Ele disse que, para o amor nascer, três coisas são necessárias: admiração, esperança e uma dose de insegurança.
Concordo e simplifico. Para o amor nascer, a gente precisa permitir que ele nasça.
Agora, eu concordo e complico. Para permitir que ele nasça, a gente tem de se livrar de memórias e não comparar o que passou com o que passa. Ninguém é igual nem age da mesma maneira. Pagar pelo o que outras pessoas fizeram pra alguém é duro. Endurece. Dá vontade de xingar o mundo. Ter de abrir mão de quem você gosta por causa disso, pior ainda.
Não acabou nem a admiração, nem a dose de insegurança. A esperança também não, mas muito pouco depende dela. E de mim. Espero que esse nó na garganta que teima em aparecer e me faz chover me deixe melhor. Espero ouvir sua voz de novo, nova.
Peixe fora d'água
Confesso, sinto uma inveja futebolística: os jogadores de futebol têm o tempo certo pra jogar a toalha. Tá lá, determinado: 45 do primeiro tempo, 45 do segundo. É matemático, lógico, racional, como tem que ser um jogo.
Não nasci com o talento de chutar uma bola. Já caí uma vez tentando e minha segunda tentativa resultou em uma unha roxa. Daí me explicaram que se chuta a bola com a parte de dentro do pé, ou com a de fora. Tarde demais, minha unha já tinha até caído. Então, cada vez que via um jogo, me dava uma dor no pé que eu decidi ignorar a existência do futebol.
E estava aí meu erro.
Futebol é muito mais que um jogo, é um treino na arte do jogar agressivo, estratégico, racional, macho. Tudo bem prático, é ou não é, 8 ou 80. As regras não têm exceção dentro do tempo do jogo. Cartão amarelo [atenção!], cartão vermelho [expulsão!]. Num gostou, chuta ou empurra, grita e solta seu estoque de xingamentos. A hora predita de se jogar a toalha está lá, varia no máximo 5 minutos. E nos 45 do segundo tempo, na hora de se jogar a toalha, de tirar o time de campo, você vai ter o resultado, bom ou não para seu time. Resultado inflexível e binário da paixão nacional.
Esse era o aprendizado que eu teria adquirido. Mas eu preferi participar da natação, deu no que deu!
18 de agosto de 2007
Melhor que raio-x, só muitos olhos!
Gosto de ser encontrada por livros. Sem querer esse aí me encontrou e quem me deu viu que eu gostei tanto [mas tanto, mais ainda do que ele], que acabei o ganhando um presentão!
A menina de muitos olhos
Dia desses no parque
Vi uma moça de raro encanto.
Tinha tantos, tantos olhos
Que, confesso, fiquei meio tonto.
A sua beleza não era pouca
(Aliás, que tremenda gatinha!)
Quando notei que tinha boca,
Engatamos uma conversinha.
Falamos sobre ecologia,
Sobre suas aulas de poesia,
Sobre os óculos que usaria
Se um dia tivesse miopia.
Mas, de tudo, o que eu mais adoro
É seu olhar diversificado.
Se entretanto ela cai no choro,
Não tem quem não fique molhado.
São poemas sobre alguns personagens peculiares de Tim Burton, com os quais me identifico bastante [:o)]! O livro se chama O triste fim do pequeno menino ostra e outras histórias e foi publicado pela Girafinha.
A menina de muitos olhosDia desses no parque
Vi uma moça de raro encanto.
Tinha tantos, tantos olhos
Que, confesso, fiquei meio tonto.
A sua beleza não era pouca
(Aliás, que tremenda gatinha!)
Quando notei que tinha boca,
Engatamos uma conversinha.
Falamos sobre ecologia,
Sobre suas aulas de poesia,
Sobre os óculos que usaria
Se um dia tivesse miopia.
Mas, de tudo, o que eu mais adoro
É seu olhar diversificado.
Se entretanto ela cai no choro,
Não tem quem não fique molhado.
2 de agosto de 2007
Órion

Primeiro a tinha a três palmos do nariz. Capturava suas luzes nas retinas e transformava em histórias.
Depois preferi a distância e ela ficou registrada na memória, nas fotos, nos cartazes.
Agora, depois de olhar por tempos reproduções auto-colantes, a trago pra perto vez ou outra e, então, permito-me lembrar de onde vim.
Depois preferi a distância e ela ficou registrada na memória, nas fotos, nos cartazes.
Agora, depois de olhar por tempos reproduções auto-colantes, a trago pra perto vez ou outra e, então, permito-me lembrar de onde vim.
25 de julho de 2007
Um café e uma pista, por favor.
"– Desde quando você gosta de coffee?
– Desde que te conheci!
– Ai, bonito! Então vou cantar uma música da Gloria Gaynor!"
Seja lá o que café tenha a ver com Gloria Gaynor, começou a cantoria na mesa ao lado. Eu, tentando ler. O escritor, à minha frente, tentando escrever: duas canetas, um caderno e um maço de cigarros.
Impossível não prestar atenção nos rapazes, muita alegria e agudos fenomenais! Ele também está prestando atenção nos rapazes cantantes. Será que os transformará nos próximos personagens principais de um best-seller? Um deles tem toda a pinta de serial killer, dândi feito o protagonista de Frenesi. O outro pode ser a primeira vítima da série, porque lhe falta um quê de personalidade.
E o escritor não pára de escrever e está tentando ver o que estou lendo. Já sei! Vou dizer o que estou lendo, se ele deixar eu ler o que está escrevendo. Porque ele tem um sorriso pregado no rosto enquanto escreve. Troca justa. Vou lá! Chegou meu café. Minha curiosidade vai ter de esperar o café acabar.
Tarde demais, faltam 5 para as 9. A sessão de Uma verdade inconveniente vai começar. Ele fecha o caderno, levanta, pega as duas canetas, as põe no bolso junto ao maço de cigarro, me dirige um sorriso e se dirige à sala, acompanhado da alegria dos dois que agora não cantam, falam sobre La Dolce Vita:
"–Ai, não existem mais mulheres como Anita Ekberg! Que busto! [busto? educados... :o)]
–Nem homens como Marcello Mastroianni! Que...
[juntos] – Ah-rá-rá-rá-rá-rá-rá!"
[[O que será que eles sabem sobre o Marcello Mastroianni? :o)]]
– Desde que te conheci!
– Ai, bonito! Então vou cantar uma música da Gloria Gaynor!"
Seja lá o que café tenha a ver com Gloria Gaynor, começou a cantoria na mesa ao lado. Eu, tentando ler. O escritor, à minha frente, tentando escrever: duas canetas, um caderno e um maço de cigarros.
Impossível não prestar atenção nos rapazes, muita alegria e agudos fenomenais! Ele também está prestando atenção nos rapazes cantantes. Será que os transformará nos próximos personagens principais de um best-seller? Um deles tem toda a pinta de serial killer, dândi feito o protagonista de Frenesi. O outro pode ser a primeira vítima da série, porque lhe falta um quê de personalidade.
E o escritor não pára de escrever e está tentando ver o que estou lendo. Já sei! Vou dizer o que estou lendo, se ele deixar eu ler o que está escrevendo. Porque ele tem um sorriso pregado no rosto enquanto escreve. Troca justa. Vou lá! Chegou meu café. Minha curiosidade vai ter de esperar o café acabar.
Tarde demais, faltam 5 para as 9. A sessão de Uma verdade inconveniente vai começar. Ele fecha o caderno, levanta, pega as duas canetas, as põe no bolso junto ao maço de cigarro, me dirige um sorriso e se dirige à sala, acompanhado da alegria dos dois que agora não cantam, falam sobre La Dolce Vita:
"–Ai, não existem mais mulheres como Anita Ekberg! Que busto! [busto? educados... :o)]
–Nem homens como Marcello Mastroianni! Que...
[juntos] – Ah-rá-rá-rá-rá-rá-rá!"
[[O que será que eles sabem sobre o Marcello Mastroianni? :o)]]
13 de julho de 2007
Equilibrando sapos
Engolir sapos-boi é a nova modalidade da arte circense que desenvolvi.
Muito divertida, aliás. Tem vezes que incomoda um pouquinho.
O mais impressionante – e é aí que está a arte – é transformar o sapo-boi em girino.
O truque, e eu posso ensiná-lo a você [é bem complexo], o truque é: engolir o sapo, analisar textura, cor, consistência da carne, lubrificação da pele, agudos do coaxar. Então você respira fundo, toma um gole de água e pum! Sai o girininho, a resposta cautelosa ao mundo, acompanhado do que dizem ser a maior virtude humana: a paciência do início de tudo.
***
O treinamento
Enquanto evolui nessa modalidade circense, vai passar pelas seguintes fases.
- Primeiro você se indigna com os deuses, com o mundo e com tudo o que te acontece. Falta de paciência total.
- Depois, visto que tudo está legal para a maior parte das pessoas e só você sente indignação, preocupação, a indignação fica escondida e você começa a engolir os sapos-boi, pois põe-se no lugar do outro, entende, blá, blá, blá.
- Em certo momento você se cansa novamente e diz: "Nossa, como pude ter tanta paciência!", seguido por "Vão tomar suco de caju e vivam suas vidas!".
[Advirto: os pronunciamentos dessas fases são, todos, seguidos de profunda dor de garganta]
- Por último, você se percebe em um estado de letargia. "Ah! legal!", "Ah, que bom!", "Puxa, que coisa para se dizer, mas vamos deixar o girino viver!", são as frases mais recorrentes que saem da sua boca. Você pode achar isso preocupante, mas asseguro que os resultados são reconfortantes. A dor de garganta ameniza, devido à diferença de tamanho entre sapos-boi, sapos, pererecas e girinos.
Não que eu tenha comprovado muita coisa, pelo fato de o processo todo ser demorado, mas tenho de acreditar que é assim que as coisas fluem. "É assim que as coisas fluem, é assim que as coisas fluem, é assim que as coisas fluem..." [meu estágio atual, hehehe!]
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